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“Curso preparatório Enem e vestibulares 2010″ (Abril Coleções): o que esperar?

“Curso preparatório Enem e vestibulares 2010″ (Abril Coleções): o que esperar?

*Este texto é uma resenha da apostila Biologia I do “Curso preparatório Enem e vestibulares 2010″ lançado em Maio pela Abril Coleções.

Fiquei interessado por essa coleção desde que soube de seu lançamento. Agora que consegui um exemplar emprestado trago minhas impressões para vocês.

Acima de tudo, o portal desenvolvido pelo Guia do Estudante foi muito feliz na descrição do material produzido:

Um programa de estudo completo para você detonar no Exame e garantir sua vaga na universidade.

Eu entendo “programa de estudo” como um guia e não como algo que possa ser a única fonte para se estudar para o Enem e principalmente para vestibulares. Encarando a apostila como um guia ou como uma leitura leve para os dias em que a cabeça não aguenta mais lidar com informações aprofundadas, o aluno terá uma boa opção de material desde que tenha uma noção razoável da matéria. Existem alguns erros conceituais que podem ser problemáticos para quem busca aprender, ao invés de reforçar o que já sabe.

Contras

Os furos começam logo no site, na parte “Sobre o curso”, que afirma:

… o Curso Preparatório Enem 2010 traz o conteúdo completo de Biologia. Em uma única apostila, você encontra tudo o que precisa para estudar e se atualizar para a prova.

Ora, se existem dois volumes de Biologia, o que traz a apostila Biologia II? Além disso, alguns erros conceituais básicos são repetidos em várias páginas. O mais fácil de ser encontrado, como sempre, é a utilização do termo “código genético” como sinônimo de “genoma”.

O termo “genoma” refere-se a todo o material genético presente na célula. Já “código genético” é a sequência de nucleotídeos (moléculas que formam DNA e RNA) codificados em trincas (chamadas códons) no RNAmensageiro que determinam a sequência de aminoácidos na síntese de proteínas.

Infelizmente esse erro é muito comum e não faltam exemplos importantes do uso errado desses termos (AQUI e AQUI), mas é sempre bom ficar atento a vestibulares que possam focar justamente essa confusão de termos em alguma questão.

Outro erro aparece num texto que chama a membrana plasmática de “parede celular”. Enquanto a membrana plasmática é comum a todas as células, as paredes celulares são estruturas rígidas presentes em bactérias, fungos e vegetais. Curiosamente o Exercício 3 do mesmo tópico traz a terminologia correta.

Prós

A apostila é muito bem ilustrada, algo que considero cada vez mais importante para facilitar a compreensão de tantos conceitos abstratos presentes na Biologia. Ponto para a Abril.

A introdução também é ótima, são duas páginas que tratam da estrutura do Enem, suas áreas de conhecimento e competências de cada disciplina. Como a competição em provas e vestibulares é cada vez mais acirrada, é fundamental ter consciência de como é o exame que se vai enfrentar (além de estudar muito, claro!).

Mas o que achei mais interessante, sem dúvida, foi a introdução de cada tópico da apostila: todos os tópicos iniciam com alguma tema da atualidade, o que melhora o interesse no assunto e pode servir de inspiração para alguma redação, eventualmente.

Alguns exemplos:

  • A parte de vírus começa com um texto sobre a famosa e atual Gripe A causada pelo vírus H1N1;
  • Fungos e bactérias mostram as diferenças entre células procariontes e eucariontes e começam o tópico com um ótimo infográfico sobre a produção do queijo gorgonzola;
  • O conteúdo sobre a membrana plasmática é introduzido por um estudo sueco que trata da possível importância de uma proteína que age na membrana e pode trazer boas notícias para o tratamento de câncer de mama.

Enfim, ideias como essa e o preço reduzido de cada apostila (a de Biologia I está sendo vendida por R$7,90 e os demais volumes saem por $14,90 cada) podem ser um diferencial para quem busca leitura alternativa para o Enem e para os vestibulares, apesar de eu não considerar que o conteúdo teve profundidade suficiente para algumas provas discursivas, por exemplo.

Você já teve contato com essa apostila? Deixe sua opinião nos comentários!

Site: Curso Preparatório Enem e Vestibulares 2010

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Vida sintética?

Vida sintética?

Esse texto sai um pouco da temática do Ciensinando pois trata de um assunto complexo sem antes discutir o conceito por trás da notícia. Apesar disso, é mais um exemplo de como devemos encarar de modo crítico toda a informação a que temos acesso.

O anúncio da criação da “primeira célula sintética” está sendo tratado como o grande acontecimento científico de 2010 (até agora).  Com isso, aconteceu o que eu esperava: a mídia recheou portais, jornais e programas de rádio com interpretações totalmente erradas sobre a ciência do trabalho.

Muitos encaram os resultados publicados na revista Science como o passo definitivo para a criação de vida artificial. Em teoria será possível criar organismos capazes de degradar óleo (minizando desastres ambientais), produzir biocombustíveis ou ainda captar grandes quantidades de dióxido de carbono (minizando o efeito estufa).

Minha pergunta é: podemos realmente entender que testemunhamos a criação de um organismo sintético? Após ler o artigo da Science e pensar sobre o que eu consideraria uma forma de vida artificial, minha resposta é um simples não.

Outras pessoas que eu considero igualmente competentes para tratar do assunto mostraram uma opinião similar à minha, como Rafael Soares (do RNAm), Roberto Takata (Gene Repórter) e Tatiana Nahas (Ciência na Mídia). Eles já abordaram as questões técnicas como eu faria aqui, então sugiro que ao final desse texto vocês acessem o blog de cada um deles para mais informações.

ResearchBlogging.org

Resumidamente, o que o trabalho publicado comunica é o resultado de vários estudos realizados para se conseguir sintetizar um genoma completo e transplantá-lo para uma célula “recipiente” de outra espécie de bactéria.

O genoma escolhido foi do organismo Mycoplasma mycoides (um dos menores conhecidos, com apenas 1 milhão de pares de bases) e o alvo do transplante foi o Mycoplasma capricolum, espécie muito próxima da M. mycoides.

O genoma foi “desenhado” em um programa de computador e construído por amplificações sucessivas de vários de seus pedaços. Estes foram “colados” até que, de pequenos fragmentos de 1000 (mil) pares de bases (as letrinhas – A, T, C e G – que simbolizam o DNA) os cientistas conseguissem fragmentos de 10000 (dez mil) e em seguida de 100000 (cem mil) bases. Esses fragmentos maiores foram então agregados, formando um genoma totalmente sintético.

O ponto importante: o genoma é artificial, mas e todo o conteúdo da célula que recebeu esse material genético?

A membrana da célula (membrana plasmática) e suas proteínas são tão importantes quanto o DNA para que a célula possa sobreviver e se multiplicar. Se houvesse um modo de retirar todo o conteúdo da célula e injetar somente o DNA sintético a mesma morreria, afinal, sem proteínas que acessem o DNA para produzir RNA e finalmente as proteínas celulares indispensáveis à vida não há como o “organismo sintético” manter-se vivo.

Desse modo, até termos competência para sintetizar uma membrana plasmática especializada como as biológicas e as proteínas necessárias para a fisiologia celular, não podemos considerar que exista qualquer organismo sintético.

Explicados meus motivos, entenderam minha implicância com os meios de comunicação? Minha motivação para escrever esse texto partiu de uma notícia que chegou até mim via twitter. Um vídeo publicado no TV UOL descaracterizou completamente uma matéria publicada pela BBC Brasil. Comparem os títulos:

BBC Brasil: Cientistas americanos criam célula com genoma sintético.

TV UOL: Cientistas criam 1ª forma de vida completamente artificial.

Além do título distorcido, a chamada para o vídeo é muito pior:

Cientistas americanos dizem ter desenvolvido a primeira forma de vida completamente artificial, a primeira célula controlada por um genoma sintético. O avanço já está sendo descrito como uma das conquistas científicas mais importantes da história da humanidade.

A informação está tão distorcida que parece ter sido feita de propósito. De qualquer modo, recomendo o vídeo da BBC Brasil (logo abaixo) por ter apresentado outra matéria sobre o assunto que considero ainda mais correta.

O título? “Cientistas transplantam genoma em novo ‘passo’ rumo à criação de vida sintética.” Isso sim é resumir de modo claro e correto os resultados do artigo publicado.

Links para as matérias comentadas: TV UOL, BBC Brasil 1 e BBC Brasil 2.

Textos indicados: Essa nossa vidinha sintética (RNAm), A bactéria sintética de Craig Venter (Ciência na Mídia) e Vida sintética e artificialismos (Gene Repórter).

Gibson, D., Glass, J., Lartigue, C., Noskov, V., Chuang, R., Algire, M., Benders, G., Montague, M., Ma, L., Moodie, M., Merryman, C., Vashee, S., Krishnakumar, R., Assad-Garcia, N., Andrews-Pfannkoch, C., Denisova, E., Young, L., Qi, Z., Segall-Shapiro, T., Calvey, C., Parmar, P., Hutchison, C., Smith, H., & Venter, J. (2010). Creation of a Bacterial Cell Controlled by a Chemically Synthesized Genome Science DOI: 10.1126/science.1190719

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