Nanotecnologia, microprocessadores, biotecnologia. Estamos acostumados a pensar nas coisas numa escala reduzida, um exemplo de como o nosso modo de pensar em determinado momento histórico é, em parte, produto da tecnologia à disposição.
Algum tempo atrás comecei a pensar em qual avanço tecnológico teria sido a maior contribuição para as Ciências Biológicas. Não estava tentando determinar o maior avanço ou a tecnologia mais complexa, mas a mais revolucionária.
Após considerar vários fatores, cheguei à minha conclusão: apesar de todos os avanços que vimos no último século, nada revolucionou tanto o mundo da Biologia como o microscópio!
Acredita-se que o primeiro microscópio tenha sido criado pelo holandês Hans Jannsen e seu filho Zacharias por volta de 1590. Os primeiros modelos não passavam de lentes de aumento mais potentes, mas seu impacto no estudo da natureza foi o grande responsável pelo desenvolvimento da Biologia que conhecemos hoje.
Foi assim que entre 1663 e 1664 Robert Hooke produziu o livro Micrographia, publicado em 1665. Além de ilustrações de suas observações, foi nesse livro que “nasceu” um dos termos fundamentais da Biologia. Ao observar cortes finos de cortiça, Hooke comparou a estrutura da cortiça às pequenas acomodações em que os monges viviam, que de tão apertadas pareciam celas de uma prisão. As “celas” de Robert Hooke (do Inglês cell) foram o momento em que o termo célula foi criado. Não é a toa que esse livro foi o primeiro best-seller científico da história.

Robert Hooke (1635-1703; esq.), autor de Micrographia (centro) que cunhou o termo célula observando cortes de cortiça (dir.).
Antoine Philips van Leeuwenhoek, por sua vez, é conhecido como o “Pai da Microbiologia”. Ele é considerado o primeiro microbiologista, pois ninguém antes dele havia observado e descrito organismos unicelulares. Inicialmente chamados de animáculos, quem hoje em dia nunca ouviu falar de microrganismos? O problema foi que em 1676, quando Leeuwenhoek comunicou seus achados à Royal Society of London (Sociedade Real de Londres), ninguém sequer imaginava a existência de seres vivos invisíveis a olho nu, de modo que a descoberta contestada. A reputação do cientista foi posta em cheque até a aceitação de suas observações, o que só aconteceu em 1680.

Leeuwenhoek (1632-1723; esq.), seu microscópio (centro) e o microscópio utilizado por R. Hooke (dir.).
Pensando em Hooke e Leeuwenhoek, fica evidente a importância do microscópio. Sem ele não teríamos a noção de que a vida tem dimensões muito menores do que podemos observar. Não conheceríamos os microrganismos (portanto saberíamos muito pouco sobre várias doenças, por exemplo), não teríamos descoberto que todos os organismos vivos são formados pela mesma unidade funcional (a célula) e não teríamos passado a estudar essas unidades funcionais para entender como a vida funciona.
Sem microscópio não haveria biologia celular, nem bioquímica ou biologia molecular. A revolução dos estudos com DNA e outras moléculas que aconteceu no século 20 e vivemos hoje em dia nunca seria possível. Por isso considero o desenvolvimento do microscópio a peça fundamental no avanço dos estudos biológicos.
Não consigo evitar de, pelo menos de tempos em tempos, imaginar o que pode ter passado pela cabeça de Leeuwenhoek quando observou microrganismos pela primeira vez. O que vocês pensariam se de repente descobrissem o mundo que seus olhos percebem é apenas uma fração de tudo que compõe o mundo real?
Deve ser parecido com o que sentiríamos ao descobrir que a cena abaixo é possível… Lembro de ter pensado no vídeo abaixo muito tempo depois de tê-lo visto no cinema pela primeira vez.
O texto acima é um exercício de opinião. Concorda comigo ou tem algum outro avanço tecnológico que ache mais importante? Compartilhe nos comentários!
Referências:
Fara, P. (2009). A microscopic reality tale Nature, 459 (7247), 642-644 DOI: 10.1038/459642a
Hooke, R. Micrographia: or, Some physiological descriptions of minute bodies made by magnifying glasses. London: J. Martyn and J. Allestry, 1665.
Texto inspirado pelo livro “Pequenas Maravilhas: como os micróbios governam o mundo”, escrito por Idan Ben-Barak e publicado no Brasil pela Editora Zahar, que me enviou um exemplar.
O livro foi indicado em 2010 como o “Melhor livro científico para jovens” pela Associação Americana para o Progresso da Ciência e trata de alguns dos temas mais interessantes e curiosos relacionados a diferentes microorganismos que são, no final das contas, os verdadeiros “donos” do planeta Terra.




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