Sobre o “Simpósio em Educação” da SBBq 2011 e os pontos-chave do ensino de ciências.

Como vocês sabem, estive na 40ª Reunião da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular.

Hoje compartilho a excelente discussão que aconteceu no Simpósio em Educação, para mim o ponto alto da SBBq 2011!

O Simpósio foi presidido pelo Prof. Dr. Jorge Guimarães, atual presidente da CAPES. Ele apontou que desde 2008 a CAPES atua na Educação Básica e destacou a criação do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (o PIBID, que será comentado num outro post), que conta com 30 mil bolsistas. O Prof. Jorge comentou que “a pós-graduação será salva pela educação básica” e que “a pós-graduação passou por um processo de seleção ‘darwiniano’, aproveitando os melhores alunos de iniciação científica, graduação etc.”. Pelo que entendi essa declaração está relacionada ao pouco apelo que as carreiras em ciência e em docência têm atualmente, como os demais participantes comentaram em seguida.

O Prof. Giuseppe Pelegrini, da Universidade de Padova (Itália), falou em nome da iniciativa Observa – Science in Society, um centro de pesquisas focado na interação entre ciência, tecnologia e sociedade. Com o objetivo de estimular o diálogo entre pesquisadores, políticos e cidadãos, dentre suas atividades está auxiliar o projeto ROSE – The Relevance of Science Education (“Relevância sobre a Educação em Ciências”), que constitui uma rede de 42 países. Reservei um post para detalhar essas informações, mas os próximos parágrafos resumem alguns pontos de destaque.

Os estudantes sabem da importância de se estudar ciência, mas têm pouco interesse nos tópicos abordados. A maior curiosidade está relacionada às doenças (tratamento e prevenção), substâncias perigosas, astronomia e energias alternativas. Já a carreira científica não é atrativa para a maioria dos estudantes dos países da rede, que afirmaram preferir trabalhos que envolvam criatividade, independência, tempo para si, fama e sucesso.

A maioria dos entrevistados acredita nos benefícios da ciência e 50% que a mesma ajuda a desenvolver nações. No entanto, muitos acreditam que os benefícios que a ciência pode proporcionar não são maiores do que os efeitos adversos que podem surgir de seu desenvolvimento.

Quando perguntados sobre as pessoas-chave na escolha de uma carreira científica, responderam: bons professores, mãe/madrastas, pai/padrastos, orientadores vocacionais, irmãos ou parentes. Quando a questão foi sobre os fatores-chave que levariam a essa escolha: laboratórios nas escolas; escola secundária direcionada (técnica, vocacional etc.) e, novamente, bons professores.

Considerando esses achados não há discussão sobre o papel fundamental do professor no relacionamento dos estudantes tanto com as matérias de ciências como com a propensão dos alunos a seguirem uma carreira científica!

O segundo convidado foi o Prof. Justin Dillon, do King´s College of London (Inglaterra), que falou sobre o projeto Science Education: Interest, image and identity (Educação Científica: interesse, imagem e identidade). Ele reconheceu que existe “um problema mundial na educação, pois os alunos têm pouco interesse nas aulas de ciências devido à educação científica não evoluir ao longo do tempo”, e que a minoria dos alunos prefere as ciências em relação às outras matérias. Um ponto importante é o que países menos desenvolvidos têm alunos mais interessados na área científica, fato que o Prof. Dillon relacionou a os alunos perceberem a carreira em ciência como uma maneira de melhorar sua situação econômica e social.

Outro comentário interessante foi: “Somos muito bons em selecionar estudantes que não gostam de ciência, mas são muito bons na mesma! Onde estão os alunos interessados?”. Ele relacionou a mesma ao depoimento de um aluno:

“Quando tinha 13 anos comecei a aprender sobre moléculas e átomos e achei aquilo demais, tanto que cheguei em casa e logo fui contar à minha mãe! Mas daí no ano seguinte continuei aprendendo a mesma coisa, e depois a mesma coisa, e a mesma coisa… isso é tão repetitivo!”

Em seguida o Dillon comentou o relatório “Europe needs more scientists” (A Europa precisa de mais cientistas, de 2004), e que “deveríamos providenciar a educação científica não para formar novos cientistas, mas porque toda criança precisa ter na ciência algo familiar”. Após mostrar dados relatando que 28% dos alunos já pensam em se tornar cientista ou em carreiras científicas aos 11 anos, afirmou que os países europeus devem se certificar que os professores tenham a melhor formação possível e que a abordagem científica seja feita logo nos primeiros anos de estudo, com foco em acontecimentos naturais e foco prático.

Mais uma vez foram mostrados dados que afirmavam: os professores são as pessoas mais importantes em motivas os alunos a seguirem carreiras científicas! Segundo ele, o ideal é tornar a educação científica algo relacionado às respostas emocionais, abrindo o leque “testar, predizer, argumentar, experimentar”. Segundo ele, a diferença de foco de museus (o engajamento dos visitantes) e de escolas (transmitir o conteúdo) pode ser a explicação para o sucesso dos primeiros.

Quem encerrou as apresentações foi o Prof. Dr. Nélio Bizzo, da Faculdade de Educação da USP, com “Os jovens e a ciência – resultados preliminares do projeto ROSE – Brasil”. Os resultados de um estudo piloto comparando a percepção de aproximadamente 600 alunos das cidades de São Caetano do Sul (que possui alto IDH, é metropolitana e tem foco nos setores de serviços e industrial) e de Tangará da Serra (que apresenta problemas ambientais e constitui um pólo agroindustrial).

Tangará demonstrou mais interessados em empregos na área científica e alta tecnologia, ao contrário do que foi observado para os alunos de São Caetano do Sul. Foi uma repetição do padrão comentado pelo professor Pellegrini: a região menos desenvolvida teve mais alunos interessados em Ciências.

Outro fato curioso foi a melhor aderência ao projeto em centros pouco desenvolvidos. Parece ser comum acontecerem problemas em grandes centros urbanos, será que locais mais desenvolvidos têm tantas “preocupações” que não conseguem participar dessas iniciativas? Num estudo exploratório em duas escolas de SP houve desconforto da comunidade escolar com a aplicação do questionário. Professores sentiram-se pressionados em relação ao desempenho de seus alunos, enquanto os alunos acharam desestimulante a atividade não ser revertida em avaliações na escola (notas, ranking da escola etc.). Minha observação é de que tais observações apontam a nossa falta de cultura em relação à importância desses testes para diagnosticar problemas e melhorar as condições de ensino.

Ao abordar a questão “Quero ser um cientista”, o Prof. Bizzo mostrou-se surpreso e preocupado com a grande rejeição em todas as regiões do Brasil. Pensei que poderia haver um problema com a pergunta feita, pois acredito que perguntar sobre uma profissão específica traga resultados geralmente baixos. Comentei esse fato com o Prof. Dr. Bayardo Baptista Torres, de quem fui aluno de Bioquímica e que estava sentado ao meu lado: “qual seria o resultado de uma pergunta como ‘quero ser arquiteto, bancário, farmacêutico etc.’?”

O Prof. Bayardo concordou que o resultado “ruim” poderia ser uma diluição natural da aceitação de uma profissão, mas ressaltou que de qualquer modo a carreira científica não é percebida como atrativa pelas pessoas em geral. Para o Prof. Jorge Guimarães “a explicação de os estudantes não quererem ser cientistas está relacionada à má qualidade dos professores da educação básica”!

Ou melhoramos o ensino, ou as salas de aula de cursos científicos ficarão assim...

Minha opinião é que todos têm razão: são necessários grandes esforços para tornar da Ciência algo palatável, presente e “comum” para os cidadãos interessados ou não no tema. Algo que foi ao mesmo tempo preocupante e trouxe um pouco de alívio foi descobrir que esse é um problema mundial, e todos estão pensando em maneiras de resolvê-lo.

Espero ter muitos casos de sucesso para relatar por aqui!

O primeiro relato dessa viagem está em “Congressos científicos: o que são e por que são importantes?” Confiram também uma entrevista em “Confissões de uma estreante em congressos científicos”.

ps: peço desculpas pelo texto gigante, mas pensei que dividi-lo em partes seria pior e mais confuso.

1 Comment

  1. Sabe o que mais eu acrescentaria para uma educação científica melhor?

    Livros e internet. Pra ser sincero, foram esses dois que me levaram a amar a ciência.

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