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Discussão sobre o ensino de ciências do futuro.

Discussão sobre o ensino de ciências do futuro.

Post rápido para divulgar um evento interessante que ocorrerá dias 9 e 10 de Novembro em Campinas. Quem tiver disponibilidade deve aproveitar!

O Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) confirmou dois encontros com profissionais da Science House que terão como tema o ensino de ciência do futuro. Para quem não conhece, a Science House é uma organização que apóia o desenvolvimento científico de diversas formas. Entre suas ações estão a realização de encontros entre esses diferentes profissionais, investimentos iniciais em empresas de alta tecnologia e, motivo desse texto, o financiamento de projetos que tenham como objetivo empolgar as crianças a respeito da ciência.

A programação é a seguinte:

  • 4ª-feira (09/11) das 14h às 16h30: Joshua Fouts abordará novos rumos da educação com a palestra “Novos Rumos da Educação em Ciência: Criando os times do futuro” (em português).
  • 5ª-feira (10/11) das 10h às 12h: Rita J. King apresentará experiências da instituição norte-americana na era da imaginação em “Science House in the Imagination Era” (em inglês).

O evento é aberto ao público e a inscrição é gratuita! Os interessados devem se inscrever pelo e-mail lnbiocomunica@abtlus.org.br

Infelizmente não poderei comparecer, mas o LNBio está de parabéns pela iniciativa! Quem sabe numa próxima oportunidade…

PS: a dica do evento chegou por e-mail pelo Rafael Soares, amigo e “CEO” do blog científico RNAm, do qual sou co-autor (conheça clicando AQUI).

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Botões, colheres e a química na história! (PRÉVIA)

Botões, colheres e a química na história! (PRÉVIA)

Chegou ao laboratório no dia 15/07/2011 (data de seu lançamento) o livro “A colher que desaparece”, gentilmente enviado pela Editora Zahar, que já está se tornando parceira desse blog! Por motivos médicos – fiquei de cama por causa de uma amidalite – só hoje o livro chegou às minhas mãos, e tenho curtido muito as surpresas que a Zahar tem me proporcionado (eles nunca avisam se vão mandar alguma coisa).

Dessa vez, no entanto, farei algo um pouco diferente da resenha. É óbvio que ainda não li o livro, mas estou terminando de ler “Os botões de Napoleão – as 17 moléculas que mudaram a história”, lançado em 2006 também pela Zahar, que comprei no começo desse ano.

Como os dois títulos têm aspirações semelhantes, ou seja, a divulgação científica com foco em química, a ideia é fazer uma análise comparativa dos livros, além das individuais. Vocês saberão o que cada livro tem de bom, o que poderia ser melhor, e a minha indicação para o caso de você precisar escolher um dos dois. Sem esquecermos, claro, que leitura nunca é demais e que o que publicarei será a minha opinião, uns concordarão, outros não.

Enquanto em “Os botões…” os autores descrevem a influência da química na história da humanidade a partir da análise de 17 grupos de moléculas, em “A colher…” o foco é mais amplo, pois trata desde a descoberta dos elementos químicos, da estrutura do átomo e das histórias mais interessantes sobre os elementos da Tabela Periódica.

Se quiser saber um pouco de cada livro antes de ler as resenhas, acesse o site da Editora Zahar em:

Os botões de Napoleão – as 17 moléculas que mudaram a história

A colher que desaparece – e outras histórias reais de loucura, amor e morte a partir dos elementos químicos

Você já leu algum dos livros? Compartilhe sua opinião e impressões nos comentários!

 

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Terminei de ler: “Guia Mangá de Biologia Molecular”.

Terminei de ler: “Guia Mangá de Biologia Molecular”.

No começo do ano peguei um exemplar de “O Guia Mangá de Biologia Molecular” da Novatec Editora e posso dizer que é um livro que cumpre metade do prometido:

“Se você precisa de uma revisão em biologia molecular ou simplesmente é fascinado pela ciência da vida, o Guia oferece uma introdução muito divertida e informativa.”

O livro revisa de modo bem simplificado os temas clássicos da Biologia Molecular contando a história de Ami e Rin, duas estudantes de faculdade completamente desinteressadas em Biologia. Após matarem as aulas da matéria durante o semestre elas são “convidadas” – a não ser que prefiram reprovar – a fazer um curso de recuperação no laboratório do seu professor, o Dr. Moro.

Como é uma história em quadrinhos, é claro que esse laboratório fica em uma ilha particular. Entendo o apelo desse tipo de cenário mas nunca vou conseguir me livrar do coquetel “cientista-ilha deserta/particular/Dr. Moreau”.

Aliás, se eu não conhecesse a história do livro, acharia que Dr. Moro fosse uma referência explícita ao Dr. Moreau, personagem do livro “A Ilha do Dr. Moreau”, um romance de ficção científica escrito no final do século 19 por H.G. Wells. Também existe um filme de 1996 com o grande – e na época ele já estava grande mesmo – Marlon Brando na pele do “cientista maluco” (estereótipo que desperta o ódio deste que vos escreve) que conduz várias experiências com engenharia genética (o conteúdo dos experimentos foi atualizado em termos de tecnologia para não ficar muito mais ridículo do que o resultado final). Imaginem o filme pelas imagens abaixo e terão uma ideia do resultado final…

Marlon Brando "traindo o movimento": momentos "concentração ao microscópio" (esq.), "quero ser Mumm-ha" (centro) e "chazinho vovó" (dir.). Um filme de qualidade ímpar, realmente.

Voltando ao Guia, Ami e Rin estudam e aprendem sobre a Biologia Molecular com o auxílio de um ambiente de realidade virtual que cuida dos eventuais “problemas de abstração” que existem quando se estuda/trabalha com moléculas invisíveis a olho nu. Imagine a emoção, após 2 semanas de trabalho, ao ver um micro tubo de reação com o seu querido DNA/RNA/proteína/carboidrato e descobrir que se algum engraçadinho trocá-lo por um tubo com água pura você só vai descobrir quando tudo o que fizer dali para frente der errado. Trabalhar com moléculas requer um pouco de fé no que você está fazendo e nas técnicas que usa, só assim para acreditar que as coisas estão dando certo.

Pensando nisso, o autor do livro criou um potente simulador de realidade virtual que faz com que as estudantes “enxerguem” as reações e moléculas que o Dr. Moro – ou seu assistente bonitão – esteja ensinando em determinado momento. Confesso que isso seria uma mão na roda gigante para professores de Biologia. Principalmente os que não sabem desenhar nem uma joaninha direito, como é o meu caso.

Outro ponto a favor é o formato. O mangá é objeto de lazer de vários estudantes atuais e possui muitos adeptos no Brasil. Escrever um livro didático mescle a linguagem dos quadrinhos com diálogos teóricos e momentos de texto normal destinado a aprofundar pontos importantes foi uma grande ideia, e por isso o autor está de parabéns! Uma amostra desses dois momentos do livro pode ser vista abaixo:

Dois exemplos da linguagem encontrada no Guia: quadrinhos e explicações detalhadas.

Finalmente, no começo escrevi que o livro cumpre parte do prometido pela editora. Isso vem do fato de o conteúdo ser simplificado demais mesmo para uma revisão, como é sugerido, o que acaba fazendo par com o próximo problema que encontrei: o direcionamento do livro.

Não entendi muito bem qual é o seu público-alvo. Eu gostaria muito que esse livro fosse indicado para estudantes de ensino médio, em que seria sim aliado em revisões. No entanto, o fato de as personagens estarem na faculdade foi confuso para mim, pois o conteúdo tem pouco apelo para quem curse Biologia ou algum curso da área de Biológicas ou Saúde em nível superior.

De qualquer modo, a leitura é ótima, os conceitos estão bem explicados e resumidos e a história, como qualquer mangá, é repleta daquele carrossel emocional e termina com uma reviravolta impressionante (juro que não esperava) que, apesar de forçada em termos técnicos, me cativou!

Quer outra opinião? Leia a resenha publicada pelo amigo e parceiro de blogs Igor Santos no 42. Acessem “Resenha: Guia Mangá de Biologia Molecular” e divirta-se com os comentários sobre o estilo mangá!

As imagens do livro foram retiradas do capítulo de exemplo disponibilizado no site da Novatec Editora em http://novatec.com.br/livros/mangabiologia/

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Sobre o “Simpósio em Educação” da SBBq 2011 e os pontos-chave do ensino de ciências.

Sobre o “Simpósio em Educação” da SBBq 2011 e os pontos-chave do ensino de ciências.

Como vocês sabem, estive na 40ª Reunião da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular.

Hoje compartilho a excelente discussão que aconteceu no Simpósio em Educação, para mim o ponto alto da SBBq 2011!

O Simpósio foi presidido pelo Prof. Dr. Jorge Guimarães, atual presidente da CAPES. Ele apontou que desde 2008 a CAPES atua na Educação Básica e destacou a criação do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (o PIBID, que será comentado num outro post), que conta com 30 mil bolsistas. O Prof. Jorge comentou que “a pós-graduação será salva pela educação básica” e que “a pós-graduação passou por um processo de seleção ‘darwiniano’, aproveitando os melhores alunos de iniciação científica, graduação etc.”. Pelo que entendi essa declaração está relacionada ao pouco apelo que as carreiras em ciência e em docência têm atualmente, como os demais participantes comentaram em seguida.

O Prof. Giuseppe Pelegrini, da Universidade de Padova (Itália), falou em nome da iniciativa Observa – Science in Society, um centro de pesquisas focado na interação entre ciência, tecnologia e sociedade. Com o objetivo de estimular o diálogo entre pesquisadores, políticos e cidadãos, dentre suas atividades está auxiliar o projeto ROSE – The Relevance of Science Education (“Relevância sobre a Educação em Ciências”), que constitui uma rede de 42 países. Reservei um post para detalhar essas informações, mas os próximos parágrafos resumem alguns pontos de destaque.

Os estudantes sabem da importância de se estudar ciência, mas têm pouco interesse nos tópicos abordados. A maior curiosidade está relacionada às doenças (tratamento e prevenção), substâncias perigosas, astronomia e energias alternativas. Já a carreira científica não é atrativa para a maioria dos estudantes dos países da rede, que afirmaram preferir trabalhos que envolvam criatividade, independência, tempo para si, fama e sucesso.

A maioria dos entrevistados acredita nos benefícios da ciência e 50% que a mesma ajuda a desenvolver nações. No entanto, muitos acreditam que os benefícios que a ciência pode proporcionar não são maiores do que os efeitos adversos que podem surgir de seu desenvolvimento.

Quando perguntados sobre as pessoas-chave na escolha de uma carreira científica, responderam: bons professores, mãe/madrastas, pai/padrastos, orientadores vocacionais, irmãos ou parentes. Quando a questão foi sobre os fatores-chave que levariam a essa escolha: laboratórios nas escolas; escola secundária direcionada (técnica, vocacional etc.) e, novamente, bons professores.

Considerando esses achados não há discussão sobre o papel fundamental do professor no relacionamento dos estudantes tanto com as matérias de ciências como com a propensão dos alunos a seguirem uma carreira científica!

O segundo convidado foi o Prof. Justin Dillon, do King´s College of London (Inglaterra), que falou sobre o projeto Science Education: Interest, image and identity (Educação Científica: interesse, imagem e identidade). Ele reconheceu que existe “um problema mundial na educação, pois os alunos têm pouco interesse nas aulas de ciências devido à educação científica não evoluir ao longo do tempo”, e que a minoria dos alunos prefere as ciências em relação às outras matérias. Um ponto importante é o que países menos desenvolvidos têm alunos mais interessados na área científica, fato que o Prof. Dillon relacionou a os alunos perceberem a carreira em ciência como uma maneira de melhorar sua situação econômica e social.

Outro comentário interessante foi: “Somos muito bons em selecionar estudantes que não gostam de ciência, mas são muito bons na mesma! Onde estão os alunos interessados?”. Ele relacionou a mesma ao depoimento de um aluno:

“Quando tinha 13 anos comecei a aprender sobre moléculas e átomos e achei aquilo demais, tanto que cheguei em casa e logo fui contar à minha mãe! Mas daí no ano seguinte continuei aprendendo a mesma coisa, e depois a mesma coisa, e a mesma coisa… isso é tão repetitivo!”

Em seguida o Dillon comentou o relatório “Europe needs more scientists” (A Europa precisa de mais cientistas, de 2004), e que “deveríamos providenciar a educação científica não para formar novos cientistas, mas porque toda criança precisa ter na ciência algo familiar”. Após mostrar dados relatando que 28% dos alunos já pensam em se tornar cientista ou em carreiras científicas aos 11 anos, afirmou que os países europeus devem se certificar que os professores tenham a melhor formação possível e que a abordagem científica seja feita logo nos primeiros anos de estudo, com foco em acontecimentos naturais e foco prático.

Mais uma vez foram mostrados dados que afirmavam: os professores são as pessoas mais importantes em motivas os alunos a seguirem carreiras científicas! Segundo ele, o ideal é tornar a educação científica algo relacionado às respostas emocionais, abrindo o leque “testar, predizer, argumentar, experimentar”. Segundo ele, a diferença de foco de museus (o engajamento dos visitantes) e de escolas (transmitir o conteúdo) pode ser a explicação para o sucesso dos primeiros.

Quem encerrou as apresentações foi o Prof. Dr. Nélio Bizzo, da Faculdade de Educação da USP, com “Os jovens e a ciência – resultados preliminares do projeto ROSE – Brasil”. Os resultados de um estudo piloto comparando a percepção de aproximadamente 600 alunos das cidades de São Caetano do Sul (que possui alto IDH, é metropolitana e tem foco nos setores de serviços e industrial) e de Tangará da Serra (que apresenta problemas ambientais e constitui um pólo agroindustrial).

Tangará demonstrou mais interessados em empregos na área científica e alta tecnologia, ao contrário do que foi observado para os alunos de São Caetano do Sul. Foi uma repetição do padrão comentado pelo professor Pellegrini: a região menos desenvolvida teve mais alunos interessados em Ciências.

Outro fato curioso foi a melhor aderência ao projeto em centros pouco desenvolvidos. Parece ser comum acontecerem problemas em grandes centros urbanos, será que locais mais desenvolvidos têm tantas “preocupações” que não conseguem participar dessas iniciativas? Num estudo exploratório em duas escolas de SP houve desconforto da comunidade escolar com a aplicação do questionário. Professores sentiram-se pressionados em relação ao desempenho de seus alunos, enquanto os alunos acharam desestimulante a atividade não ser revertida em avaliações na escola (notas, ranking da escola etc.). Minha observação é de que tais observações apontam a nossa falta de cultura em relação à importância desses testes para diagnosticar problemas e melhorar as condições de ensino.

Ao abordar a questão “Quero ser um cientista”, o Prof. Bizzo mostrou-se surpreso e preocupado com a grande rejeição em todas as regiões do Brasil. Pensei que poderia haver um problema com a pergunta feita, pois acredito que perguntar sobre uma profissão específica traga resultados geralmente baixos. Comentei esse fato com o Prof. Dr. Bayardo Baptista Torres, de quem fui aluno de Bioquímica e que estava sentado ao meu lado: “qual seria o resultado de uma pergunta como ‘quero ser arquiteto, bancário, farmacêutico etc.’?”

O Prof. Bayardo concordou que o resultado “ruim” poderia ser uma diluição natural da aceitação de uma profissão, mas ressaltou que de qualquer modo a carreira científica não é percebida como atrativa pelas pessoas em geral. Para o Prof. Jorge Guimarães “a explicação de os estudantes não quererem ser cientistas está relacionada à má qualidade dos professores da educação básica”!

Ou melhoramos o ensino, ou as salas de aula de cursos científicos ficarão assim...

Minha opinião é que todos têm razão: são necessários grandes esforços para tornar da Ciência algo palatável, presente e “comum” para os cidadãos interessados ou não no tema. Algo que foi ao mesmo tempo preocupante e trouxe um pouco de alívio foi descobrir que esse é um problema mundial, e todos estão pensando em maneiras de resolvê-lo.

Espero ter muitos casos de sucesso para relatar por aqui!

O primeiro relato dessa viagem está em “Congressos científicos: o que são e por que são importantes?” Confiram também uma entrevista em “Confissões de uma estreante em congressos científicos”.

ps: peço desculpas pelo texto gigante, mas pensei que dividi-lo em partes seria pior e mais confuso.

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Mais Ano Internacional da Química!

Mais Ano Internacional da Química!

Como mencionei em outro post, 2011 foi escolhido como o Ano Internacional da Química (AIQ 2011) e a campanha brasileira é “Química para um mundo melhor”!

A última novidade é um ótimo vídeo que divulga a importância da Química, confiram abaixo!

LINK para o vídeo no YouTube

Imagem de divulgação do AIQ 2011

Parte das festividades são atividades destinadas a melhorar a educação em Química de alunos, professores e do público em geral.

Uma das iniciativas é o projeto “A Química perto de você: experimentos de baixo custo para a sala de aula do ensino fundamental e médio”, uma apostila que descreve maneiras simples mas muito interessantes de os professores aproximarem os alunos dos conceitos discutidos em aula.

Além de estar disponível gratuitamente para download no portal da campanha, existe a promessa de que o MEC distribua 100 mil exemplares em DVD para escolas públicas!

Chegou ao final desse texto achando que escrevi pouco sobre as atividades propostas na primeira edição da apostila? Fique tranquilo, alguns dos experimentos aparecerão no blog muito em breve!

Para baixar a apostila acesse o link:
“A Química perto de você: experimentos de baixo custo para a sala de aula do ensino fundamental e médio”

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Redescobrindo o DNA 3 – As regras de Chargaff

Redescobrindo o DNA 3 – As regras de Chargaff

Como mencionei em textos anteriores, foram vários os cientistas que seguiram os passos de Friderich Miescher! Você não lembra quem é Miescher e ainda acha que Watson e Crick descobriram o DNA?

Acesse no final desse post os primeiros textos da série “Redescobrindo o DNA” e conheça a verdadeira história sobre as pesquisas com essa importante molécula!

Nas décadas seguintes à descoberta da nucleína de Miescher vários cientistas concentraram esforços em uma série de pesquisas que revelaram detalhes sobre a molécula de DNA. Alguns dos importantes resultados foram a determinação de seus componentes primários (os nucleotídeos)  e o modo como essas unidades juntavam-se entre si na formação da molécula. Sem as contribuições de todos esses pioneiros, Watson e Crick não teriam as fundações científicas que possibilitaram a eles elaborar os modelos teóricos sobre a estrutura tridimensional do DNA e talvez nunca alcançassem seus objetivos.

Erwin Chargaff (1905-2002) em foto de galã.

O personagem de hoje foi um dos pesquisadores que expandiram o trabalho de Levene (apresentado na 1ª parte da série “Redescobrindo o DNA”) ao descobrir mais detalhes sobre a estrutura do DNA, abrindo caminho para Watson e Crick. Ele é Erwin Chargaff, um bioquímico austríaco que teve a seu favor ter sido um dos primeiros a perceber a importância do trabalho publicado pelo grupo de pesquisas de Oswald Avery em 1944 (discutido na 2ª parte da série “Redescobrindo o DNA”).

Ao ler o trabalho em que Avery e seus colaboradores demontraram que as unidades hereditárias (os genes) eram compostos de DNA, ficou profundamente interessado no assunto. Esse trabalho teve um impacto tão profundo em Chargaff  que o inspirou a lançar um programa de pesquisas focado exclusivamente na química de ácidos nucléicos. Ele escreveu sobre o trabalho de Avery:

“Essa descoberta, quase abruptamente, apareceu para pressagiar a química da hereditariedade e, além disso, fez provável o caráter de ácido nucléico do gene… Avery nos deu o primeiro texto de uma nova linguagem ou pelo menos nos mostrou onde procurá-la. Eu resolvi buscar esse texto.”

Para entender melhor o DNA como material hereditário, um dos primeiros passos em suas pesquisas foi investigar se havia diferenças entre o DNA de diferentes espécies. A partir desses estudos ele chegou a duas conclusões principais:

  1. Que a composição de nucleotídeos do DNA varia entre as espécies, isto é, os mesmos nucleotídeos não se repetiam na mesma ordem como proposto por Levene em suas pesquisas.
  2. Que quase todo o DNA, independentemente de qual organismo ou tecido tenha sido extraído, mantém algumas propriedades mesmo que sua composição seja variável. Em particular, ele demonstrou que a quantidade do nucleotídeo adenina (A) é sempre similar à quantidade do nucleotídeo timina (T), enquanto a quantidade de citosina (C) é similar à de guanina (G).

Em outras palavras, Chargaff descobriu que o total de purinas (A+G) e o total de pirimidinas (C+T) eram geralmente iguais. Essas observações ficaram conhecidas como as “Regras de Chargaff” e são resumidas no quadrinho abaixo:

A pesquisa de Chargaff foi vital para o trabalho de Watson e Crick. Foram as relações entre as bases nitrogenadas descobertas por ele que deram a Watson a ideia do pareamento dos nucleotídeos que constituem uma molécula de DNA em uma dupla-hélice.

Apesar disso, nem mesmo Chargaff imaginava qual poderia ser a explicação de seus achados e relações.

Referências e menções nesse post:
Quem descobriu o DNA? (Ciensinando)

Redescobrindo o DNA 1 – Do que é feito o DNA? (Ciensinando)

Redescobrindo o DNA 2 – O DNA é o material hereditário (Ciensinando)

Avery, O. T. et al. (1944) Studies on the chemical nature of the substance inducing transformation of pneumococcal types. Journal of Experimental Medicine 79, 137–157

Chargaff, E. (1950) Chemical specificity of nucleic acids and mechanism of their enzymatic degradation. Experientia 6, 201–209

Pray, L. (2008) Discovery of DNA structure and function: Watson and Crick. Nature Education 1(1)

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