Todo mundo já ouviu a pergunta “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, certo?Essa brincadeira foi muito comentada no começo de Julho, quando anunciaram que pesquisadores ingleses haviam encontrado provas de que a galinha seria anterior ao ovo.
No entanto, ao ler o trabalho descobri que o mesmo nunca mencionou o assunto! Assim, antes que o tema chegue à sala de aula por professores ou por algum aluno mal-intencionado querendo “pegar o professor de surpresa”, tentarei acabar com a polêmica.
Sobre a pesquisa científica comentada em todas as notícias:
O artigo que criou a confusão é sobre uma molécula chamada ovocleidina-17 (ou OC-17), parte de uma família de proteínas capazes de ligar íons cálcio (Ca2+). Nas aves essas proteínas controlam a taxa de cristalização do carbonato de cálcio que compõe a casca do ovo, e foi isso que os cientistas descobriram: o modo de funcionamento da OC-17 na formação da casca de um ovo de galinha.
Pesquisadores ingleses mostrando o modelo da OC-17, presente na casca do ovo.
Apesar disso, há proteínas de função parecida em animais que existem há mais tempo do que as galinhas, ou seja, existem várias proteínas utilizadas na formação da casca de ovos de animais, e “botar ovos” não é um resultado exclusivo da presença da proteína OC-17.
Mas de onde surgiu a relação desse estudo com a famosa pergunta “quem veio primeiro…”?
A “culpada” foi a própria comunicação da Universidade Warmick, onde a pesquisa foi desenvolvida.
O anúncio afirma que “o trabalho também pode dar uma resposta parcial para a antiga questão”, e o erro foi reproduzido por todos os veículos que a divulgaram, como aconteceu com o portal Veja.com.
O artigo científico não tem nenhuma linha de texto que trate da questão. Até o comunicado da universidade contém uma atualização em que um dos autores comenta que “a questão é irrelevante, e a importância do trabalho está na demonstração de um método rápido e eficiente de cristalização que pode ter aplicações tecnológicas importantes”.
Sobre a pergunta “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”:
Ovo ou galinha, eis a questão!
Pegadinha de Biologia: o termo “ovo” pode ser usado para denominar qualquer zigoto; para quem não lembrar, o zigoto é a célula que resulta da união dos gametas masculino e feminino (o espermatozóide do pai e do óvulo da mãe). Assim, qualquer um pode responder que “o ovo veio primeiro que a galinha”, se justificar que está considerando a palavra “ovo” como “zigoto”.
O ovo é uma estrutura compartilhada por inúmeras espécies: um ovo é basicamente o embrião resultante da fecundação do óvulo e uma porção de vitelo que serve de alimento para esse mesmo embrião.
Lembrem-se da evolução: peixes, anfíbios e répteis povoaram o planeta antes do que as aves, e todos eles botam ovos milhões de anos antes de as aves se desenvolverem.
O item 3 descreve outro ponto importante: os cientistas conseguiram demonstrar a atividade da OC-17 de galinhas, que têm como nome científico Gallus gallusdomesticus. Qual é a importância disso?
Já sabemos que as aves não foram os primeiros animais a botarem ovos com casca. Mas além disso deve-se lembrar que a espécie estudada (a galinha comum) foi domesticada a aproximadamente 10 mil anos. Se esse tempo é pequeno em relação às primeiras aves, imagine a diferença se formos considerar os répteis, os primeiros a apresentar ovos com casca rígida?
O biólogo Thiago Henrique Santos escreveu um excelente texto sobre o tema no blog Polegar Opositor. Seu material foi de grande ajuda, então nada melhor do que encerrar com uma feliz afirmação que ele fez quando discutiu o tema:
“… ancestrais de répteis e de aves botaram os primeiros ovos com casca há 340 milhões de anos. Essa inovação permitiu a sobrevivência e a maturação de seus ovos em terra e o surgimento de vertebrados terrestres muito antes de o primeiro galo cantar”.
Depois dessa alguém ainda duvida de que o ovo veio primeiro do que a galinha?
Fontes e referências:
Freeman, C., Harding, J., Quigley, D., & Rodger, P. (2010). Structural Control of Crystal Nuclei by an Eggshell Protein Angewandte Chemie International Edition, 49 (30), 5135-5137 DOI: 10.1002/anie.201000679
É com muito orgulho que indico o artigo “O encontro da ciência, da educação e da internet.” publicado no site do Sindicato dos Professores de São Paulo, o Sinpro-SP.
O texto elaborado pelos repórteres Elisa Marconi e Francisco Bicudo foi resultado de pouco mais de meia hora de uma ótima conversa sobre como a melhoria na educação científica das pessoas leva, finalmente, à formação de melhores cidadãos.
O link do artigo está no final deste post, espero que gostem!
Resolvi escrever o texto de hoje ao ver um pequeno erro num especial sobre o sequenciamento do genoma humano que o Estadão publicou pouco tempo atrás.
Quando se pensa na pergunta acima a resposta vem rápida para muita gente: quem descobriu o DNA foram os cientistas James Watson e Francis Crick!
Ah, é? Pois a resposta está errada!
Primeiro porque Watson e Crick não descobriram o DNA. O que os dois cientistas fizeram junto a Maurice Wilkins e Rosalind Franklin foi explicar a estrutura da molécula de DNA, característica fundamental para se entender a função de armazenar informação genética que o DNA desempenha em uma célula. Falarei sobre a corrida para se descobrir a estrutura do DNA e sobre um assunto relacionado em breve, portanto, fiquem atentos aos próximos posts!
Segundo porque quem descobriu o DNA foi um cientista suíço do século 19 chamado Friedrich Miescher.
Friedrich Miescher, a seu dispor!
Em 1869 ele conseguiu isolar o núcleo de leucócitos (algumas das células brancas do sangue) purificados de curativos cheios de pus que ele conseguia em hospitais. Como nessa época os antibióticos não haviam sido descobertos (coisa que só aconteceu em 1928, quando Alexander Fleming descobriu a penicilina), conseguir esses curativos usados era muito fácil, pois infecções graves eram algo normal até os antibióticos começarem a ser utilizados.
A partir dos núcleos isolados dos leucócitos ele conseguiu extrair substâncias ácidas que possuíam alto teor do elemento fósforo e eram resistentes a enzimas que quebram proteínas (mostrando que o novo achado não era de natureza proteica). Esse novo composto químico foi chamado de nucleína.
Um fato curioso é que o trabalho que ele escreveu com esses resultados e descobertas só foi publicado 2 anos depois, em 1871, quando Felix Hoppe-Seyler, chefe do laboratório em que Miescher trabalhava, confirmou todos os resultados.
Felix sabia da importância da descoberta e preferiu repetir todos os passos de seu aluno no laboratório antes de apresentar a novidade à comunidade científica.
Laboratório de Felix Hoppe-Seyler, na Universidade de Tübingen.
Quando todos os achados de Miescher foram confirmados eles publicaram vários trabalhos em revistas especializadas, e é aqui que está o erro do Estadão que me levou a escrever este texto.
O infográfico aponta Miescher como o descobridor do DNA em espermatozoides de peixes. No entanto, o trabalho em que foram estudados os espermatozoides de salmão foi publicado três anos depois dos estudos com leucócitos (em 1874), então o trabalho de 1871 é a verdadeira “descoberta do DNA”, pois foi a primeira publicação que descreveu a nucleína, que depois seria descrita como um ácido nucleico chamado ácido desoxirribonucleico, o famoso DNA.
Dahm, R. (2007). Discovering DNA: Friedrich Miescher and the early years of nucleic acid research Human Genetics, 122 (6), 565-581 DOI: 10.1007/s00439-007-0433-0
Você odeia as matérias de Ciências, como Biologia, Física e Química? Que tal tentar estudar ou sugerir ao seu professor uma abordagem mais… criminal?
Existe um grande número de filmes, séries de TV (como a famosa CSI), e, claro, um número enorme de reportagens em jornais e revistas que se pode usar para integrar o conteúdo de Ciências e a interação entre o que se aprende na escola e o dia-a-dia. Sem dúvida, um excelente material didático alternativo!
Como uma mancha de sangue pode ser relacionada à vítima de um crime? Como se determina há quanto tempo a vítima morreu verificando temperatura do corpo?
As respostas dessas perguntas são dadas por princípios biológicos e físicos: a relação entre a mancha de sangue e a vítima pode ser solucionada pelo exame do DNA; a estimativa do tempo de morte com base na temperatura corporal vem do princípio da troca de calor entre o corpo e o ambiente.
Outro exemplo: como um perito criminal sabe se uma mancha é realmente sangue?
Uma forma rápida e simples é o uso de um reagente chamado Kastle-Meyer. O perito pega o swab, uma haste flexível com um pedaço de algodão na ponta que parece um cotonete grande. Molhando o algodão com soro fisiológico, a haste é passada sobre a mancha para pegar um pouco do material dissolvido.
Agora é a vez da Química: o perito pinga algumas gotas do reagente (incolor) e, se a mancha for de sangue, o algodão do swab fica rapidamente arroxeado! As imagens abaixo mostram todas as etapas do teste.
Como isso acontece? Sabemos pelas aulas de Biologia que os glóbulos vermelhos que formam parte do sangue contém muita hemoglobina, a proteína responsável por realizar as trocas gasosas e o transporte de gases por todo o organismo. E é essa mesma hemoglobina que, denuncia a presença de sangue.
Isso acontece porque a hemoglobina possui uma atividade enzimática típica de uma peroxidase, isto é, ela “ataca” peróxidos como o peróxido de hidrogênio, nome comum da água oxigenada. Quando o reagente de Kastle-Meyer (que contém água oxigenada) é adicionado ao algodão passado na mancha, a hemoglobina decompõe a água oxigenada em água e oxigênio. O oxigênio então reage com um componente do reagente de Kastle-Meyer chamado fenolftaleína, que oxidada possui coloração avermelhada.
Quer mais exemplos e a receita para fazer o reagente de Kastle-Meyer? Veja o artigo completo abaixo e mostre para o seu professor ou, se você for professor, aplique em suas aulas!
Este texto foi escrito com base no artigo: DIAS, C.R. e ANTEDOMENICO, E. A perícia criminal e a interdisciplinaridade no ensino de ciências naturais.Química Nova na Escola, v. 32, n. 2, p. 67-72, 2010. (Quer ler o artigo completo? Acesse clicando AQUI)
Esse texto sai um pouco da temática do Ciensinando pois trata de um assunto complexo sem antes discutir o conceito por trás da notícia. Apesar disso, é mais um exemplo de como devemos encarar de modo crítico toda a informação a que temos acesso.
O anúncio da criação da “primeira célula sintética” está sendo tratado como o grande acontecimento científico de 2010 (até agora). Com isso, aconteceu o que eu esperava: a mídia recheou portais, jornais e programas de rádio com interpretações totalmente erradas sobre a ciência do trabalho.
Muitos encaram os resultados publicados na revista Science como o passo definitivo para a criação de vida artificial. Em teoria será possível criar organismos capazes de degradar óleo (minizando desastres ambientais), produzir biocombustíveis ou ainda captar grandes quantidades de dióxido de carbono (minizando o efeito estufa).
Minha pergunta é: podemos realmente entender que testemunhamos a criação de um organismo sintético? Após ler o artigo da Science e pensar sobre o que eu consideraria uma forma de vida artificial, minha resposta é um simples não.
Outras pessoas que eu considero igualmente competentes para tratar do assunto mostraram uma opinião similar à minha, como Rafael Soares (do RNAm), Roberto Takata (Gene Repórter) e Tatiana Nahas (Ciência na Mídia). Eles já abordaram as questões técnicas como eu faria aqui, então sugiro que ao final desse texto vocês acessem o blog de cada um deles para mais informações.
Resumidamente, o que o trabalho publicado comunica é o resultado de vários estudos realizados para se conseguir sintetizar um genoma completo e transplantá-lo para uma célula “recipiente” de outra espécie de bactéria.
O genoma escolhido foi do organismo Mycoplasma mycoides (um dos menores conhecidos, com apenas 1 milhão de pares de bases) e o alvo do transplante foi o Mycoplasma capricolum, espécie muito próxima da M. mycoides.
O genoma foi “desenhado” em um programa de computador e construído por amplificações sucessivas de vários de seus pedaços. Estes foram “colados” até que, de pequenos fragmentos de 1000 (mil) pares de bases (as letrinhas – A, T, C e G – que simbolizam o DNA) os cientistas conseguissem fragmentos de 10000 (dez mil) e em seguida de 100000 (cem mil) bases. Esses fragmentos maiores foram então agregados, formando um genoma totalmente sintético.
O ponto importante: o genoma é artificial, mas e todo o conteúdo da célula que recebeu esse material genético?
A membrana da célula (membrana plasmática) e suas proteínas são tão importantes quanto o DNA para que a célula possa sobreviver e se multiplicar. Se houvesse um modo de retirar todo o conteúdo da célula e injetar somente o DNA sintético a mesma morreria, afinal, sem proteínas que acessem o DNA para produzir RNA e finalmente as proteínas celulares indispensáveis à vida não há como o “organismo sintético” manter-se vivo.
Desse modo, até termos competência para sintetizar uma membrana plasmática especializada como as biológicas e as proteínas necessárias para a fisiologia celular, não podemos considerar que exista qualquer organismo sintético.
Explicados meus motivos, entenderam minha implicância com os meios de comunicação? Minha motivação para escrever esse texto partiu de uma notícia que chegou até mim via twitter. Um vídeo publicado no TV UOL descaracterizou completamente uma matéria publicada pela BBC Brasil. Comparem os títulos:
BBC Brasil: Cientistas americanos criam célula com genoma sintético.
TV UOL: Cientistas criam 1ª forma de vida completamente artificial.
Além do título distorcido, a chamada para o vídeo é muito pior:
Cientistas americanos dizem ter desenvolvido a primeira forma de vida completamente artificial, a primeira célula controlada por um genoma sintético. O avanço já está sendo descrito como uma das conquistas científicas mais importantes da história da humanidade.
A informação está tão distorcida que parece ter sido feita de propósito. De qualquer modo, recomendo o vídeo da BBC Brasil (logo abaixo) por ter apresentado outra matéria sobre o assunto que considero ainda mais correta.
O título? “Cientistas transplantam genoma em novo ‘passo’ rumo à criação de vida sintética.” Isso sim é resumir de modo claro e correto os resultados do artigo publicado.