Posted by Gabriel Cunha on 20 out 2010 in ciência, ensino, ensino de ciências, material didatico | 3 comments
Um dos melhores momentos das muitas de aulas de Inglês que fiz na adolescência era quando os professores traziam ou pediam para trazermos músicas para a aula. Era um modo de treinarmos os ouvidos e nos acostumarmos a ouvir o “Inglês sujo”, como alguns deles diziam, ao invés de um monte de atores pagos para falar calma e pausadamente nas fitinhas cassete (sim, sou meio velho) e CDs dos cursos de línguas.
Tá certo que de vez em quando eu precisava aguentar Shakira, Double You ou sei lá mais o que, mas na época eu dava o troco com Iron Maiden, Pantera e cia. Era divertido tentar entender a gritaria no meio de tanto barulho de guitarra, bateria, etc… Pensando nisso, sugiro duas músicas que trazem bastante conteúdo científico e que podem gerar ótimas discussões em qualquer sala de aula:
- “Do the evolution” (Pearl Jam): Essa é manjada, mas a animação e a letra que dão uma visão pessimista do desenvolvimento humano abrem as portas para uma discussão que pode começar no próprio conceito de Evolução Biológica e terminar com um “mas o que diabos estamos fazendo da nossa vida?!”

Cenas de "Do the evolution" (Pearl Jam; à esquerda) e a capa de "Right here, right now" (Fatboy Slim, a direita). Infelizmente os vídeos não estão com incorporação habilitada, acesse o YouTube pelos links e aumente o som!
- “Right here, right now” (Fatboy Slim): Aqui é o vídeo que contém toda a informação necessária para os alunos. Evolução biológica e o desenvolvimento humano (biológico e comportamental) são mostrados de modo irreverente e bastante crítico. Para o caso de haver alguma dúvida, a camiseta do gordinho na capa diz “Sou o número 1, prá que tentar fazer melhor?”, um soco direto na crença de que nós, humanos, somos a última palavra em evolução biológica das espécies.
Letra e tradução de “Do the Evolution” (Pearl Jam): Letras.mus.br, Portal Terra.
Boa sorte com as atividades!
read more
Posted by Gabriel Cunha on 28 jul 2010 in Ciensinando, ensino de ciências, pensamento crítico | 2 comments

Explicar química de macromoléculas pode ser um problema para os professores de Biologia. O assunto desperta pouco interesse na maioria dos alunos e, pensando nisso, compartilho duas experiências que uso para tentar fazer o estudo de pelo menos uma molécula mais interessante: o colesterol.
1. “Colesterol faz bem ou faz mal?”
A preocupação com a saúde fez com que as discussões sobre obesidade em países desenvolvidos e em desenvolvimento ficassem tão importantes quanto campanhas para combater a subnutrição de países pobres. Assim, é comum a mídia trazer informações sobre os males relacionados ao colesterol, de modo que todos já ouvimos ou lemos alguma coisa sobre o assunto.
Aproveitando esse fato procuro iniciar o tema com uma pergunta simples: “Colesterol faz bem ou faz mal?”.
Praticamente todos respondem “Faz mal!”, dando a entender que a pergunta tem uma resposta óbvia. Por isso, quando eu respondo “quem falou?” ou “depende!”, a surpresa gerada serve de gancho para explicar a parte química do tema.

- Estrutura do colesterol.
O colesterol tem fórmula molecular C27H45OH e faz parte dos esteróides, uma classe de lipídios que contém um arranjo específico de quatro anéis de átomos de carbono.
A figura ao lado foi retirada do site Cholesterol-and-health.com e é extremamente didática para explicar a estrutura da molécula:
- A cor vermelha destaca o grupo polar hidroxila ( – OH), que caracteriza a molécula de colesterol como um álcool (de acordo com as funções orgânicas) e que fornece alguma solubilidade em água;
- A cor verde mostra o arranjo de anéis de carbono específico conhecido como a “assinatura dos esteróides”;
- A cor azul corresponde à cauda de hidrocarbonetos (moléculas formadas apenas por átomos de carbono e hidrogênio), fortemente apolar, ou seja, capaz de se dissolver em substâncias oleosas ou gordurosas, mas não em água.
Pensando na importância biológica do colesterol, vale lembrar que essa molécula tem papel fundamental na fluidez das membranas celulares animais e é precursora dos demais esteróides. Dentre as moléculas derivadas estão, o estradiol (hormônio sexual feminino), a testosterona (hormônio sexual masculino), e a vitamina D, todos de vital importância.
Conclusão: por mais que tenhamos nos acostumado a enxergar o colesterol como um dos grandes vilões nutricionais ele é essencial à vida, portanto associar automaticamente a molécula a problemas de saúde é um erro.
2. Como a publicidade pode se aproveitar da sua falta de informação?
Outra discussão sobre o colesterol diz respeito à propaganda. Ainda na faculdade reparei que no rótulo de uma lata de óleo que trazia em destaque a informação: “Sem colesterol, mais saudável!”.
Como sabemos que o colesterol não pode ser extraído de produtos de origem vegetal, qual é a ideia por trás disso? Simples: como poucas pessoas sabem que todo óleo vegetal é livre de colesterol, consumidores com menos instrução podem ser induzidos a comprar a marca “A” ou “B”.
Tempos depois, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) criou o Manual de Orientação aos Consumidores (disponível no final desse texto). O documento esclarece que essa prática é proibida, como vemos no trecho abaixo:

- Determinação da ANVISA sobre óleos vegetais.
Pensando em como os fabricantes de óleos podem “driblar” as normas da ANVISA, fui ao supermercado para verificar como isso acontecia. Todos os produtos traziam a informação “óleo sem colesterol, como todo óleo vegetal”, mas a disposição da informação era variável.
Dos 19 óleos vegetais à venda no mercado que visitei no começo de Julho deste ano, oito (42%) traziam o escrito “Sem colesterol*”, sendo que o símbolo * remetia a algum canto escondido do rótulo que continha o restante da frase (“como todo óleo vegetal”). Pensando criticamente, essas marcas estão ou não buscando vantagem sobre as demais, tentando parecer mais saudáveis?
A lição mais importante a ser discutida com os alunos é: conhecimento não é importante somente para passar de ano, ter boas notas e entrar em uma boa faculdade. É, antes de qualquer coisa, a principal proteção que as pessoas podem ter contra iniciativas como essa, que procuram tirar vantagem de consumidores desavisados.
Fontes e referências:
CAMPBELL, Neil et al. Biologia (8ª ed.), Porto Alegre: Artmed 2010. ISBN: 9788536322698
ALBERTS, Bruce et al. Biologia Molecular da Célula (4ª ed.), Porto Alegre: Artmed 2004. ISBN: 8536302720
Cholesterol-and-health.com
Manual de Orientação aos Consumidores (ANVISA)
read more
Posted by Gabriel Cunha on 22 jul 2010 in ciência, ensino de ciências, pensamento crítico | 3 comments
Todo mundo já ouviu a pergunta “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, certo? Essa brincadeira foi muito comentada no começo de Julho, quando anunciaram que pesquisadores ingleses haviam encontrado provas de que a galinha seria anterior ao ovo.
No entanto, ao ler o trabalho descobri que o mesmo nunca mencionou o assunto! Assim, antes que o tema chegue à sala de aula por professores ou por algum aluno mal-intencionado querendo “pegar o professor de surpresa”, tentarei acabar com a polêmica.
Sobre a pesquisa científica comentada em todas as notícias:

O artigo que criou a confusão é sobre uma molécula chamada ovocleidina-17 (ou OC-17), parte de uma família de proteínas capazes de ligar íons cálcio (Ca2+). Nas aves essas proteínas controlam a taxa de cristalização do carbonato de cálcio que compõe a casca do ovo, e foi isso que os cientistas descobriram: o modo de funcionamento da OC-17 na formação da casca de um ovo de galinha.

- Pesquisadores ingleses mostrando o modelo da OC-17, presente na casca do ovo.
Apesar disso, há proteínas de função parecida em animais que existem há mais tempo do que as galinhas, ou seja, existem várias proteínas utilizadas na formação da casca de ovos de animais, e “botar ovos” não é um resultado exclusivo da presença da proteína OC-17.
Mas de onde surgiu a relação desse estudo com a famosa pergunta “quem veio primeiro…”?
A “culpada” foi a própria comunicação da Universidade Warmick, onde a pesquisa foi desenvolvida.
O anúncio afirma que “o trabalho também pode dar uma resposta parcial para a antiga questão”, e o erro foi reproduzido por todos os veículos que a divulgaram, como aconteceu com o portal Veja.com.
O artigo científico não tem nenhuma linha de texto que trate da questão. Até o comunicado da universidade contém uma atualização em que um dos autores comenta que “a questão é irrelevante, e a importância do trabalho está na demonstração de um método rápido e eficiente de cristalização que pode ter aplicações tecnológicas importantes”.
Sobre a pergunta “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”:

- Ovo ou galinha, eis a questão!
- Pegadinha de Biologia: o termo “ovo” pode ser usado para denominar qualquer zigoto; para quem não lembrar, o zigoto é a célula que resulta da união dos gametas masculino e feminino (o espermatozóide do pai e do óvulo da mãe). Assim, qualquer um pode responder que “o ovo veio primeiro que a galinha”, se justificar que está considerando a palavra “ovo” como “zigoto”.
- O ovo é uma estrutura compartilhada por inúmeras espécies: um ovo é basicamente o embrião resultante da fecundação do óvulo e uma porção de vitelo que serve de alimento para esse mesmo embrião.
- Lembrem-se da evolução: peixes, anfíbios e répteis povoaram o planeta antes do que as aves, e todos eles botam ovos milhões de anos antes de as aves se desenvolverem.
O item 3 descreve outro ponto importante: os cientistas conseguiram demonstrar a atividade da OC-17 de galinhas, que têm como nome científico Gallus gallus domesticus. Qual é a importância disso?
Já sabemos que as aves não foram os primeiros animais a botarem ovos com casca. Mas além disso deve-se lembrar que a espécie estudada (a galinha comum) foi domesticada a aproximadamente 10 mil anos. Se esse tempo é pequeno em relação às primeiras aves, imagine a diferença se formos considerar os répteis, os primeiros a apresentar ovos com casca rígida?
O biólogo Thiago Henrique Santos escreveu um excelente texto sobre o tema no blog Polegar Opositor. Seu material foi de grande ajuda, então nada melhor do que encerrar com uma feliz afirmação que ele fez quando discutiu o tema:
“… ancestrais de répteis e de aves botaram os primeiros ovos com casca há 340 milhões de anos. Essa inovação permitiu a sobrevivência e a maturação de seus ovos em terra e o surgimento de vertebrados terrestres muito antes de o primeiro galo cantar”.
Depois dessa alguém ainda duvida de que o ovo veio primeiro do que a galinha?
Fontes e referências:
Freeman, C., Harding, J., Quigley, D., & Rodger, P. (2010). Structural Control of Crystal Nuclei by an Eggshell Protein Angewandte Chemie International Edition, 49 (30), 5135-5137 DOI: 10.1002/anie.201000679
University of Warmick (News & Events) – Researchers apply computing power to crack egg shell problem.
Polegar Opositor – O ovo ou a galinha?
Veja.com – Cientistas descobrem nova explicação para a velha pergunta: quem veio antes, o ovo ou a galinha?
read more
Posted by Gabriel Cunha on 24 jun 2010 in ciência, ensino de ciências, História da Ciência | 8 comments
Resolvi escrever o texto de hoje ao ver um pequeno erro num especial sobre o sequenciamento do genoma humano que o Estadão publicou pouco tempo atrás.
Quando se pensa na pergunta acima a resposta vem rápida para muita gente: quem descobriu o DNA foram os cientistas James Watson e Francis Crick!
Ah, é? Pois a resposta está errada!
Primeiro porque Watson e Crick não descobriram o DNA. O que os dois cientistas fizeram junto a Maurice Wilkins e Rosalind Franklin foi explicar a estrutura da molécula de DNA, característica fundamental para se entender a função de armazenar informação genética que o DNA desempenha em uma célula. Falarei sobre a corrida para se descobrir a estrutura do DNA e sobre um assunto relacionado em breve, portanto, fiquem atentos aos próximos posts!
Segundo porque quem descobriu o DNA foi um cientista suíço do século 19 chamado Friedrich Miescher.

Friedrich Miescher, a seu dispor!
Em 1869 ele conseguiu isolar o núcleo de leucócitos (algumas das células brancas do sangue) purificados de curativos cheios de pus que ele conseguia em hospitais. Como nessa época os antibióticos não haviam sido descobertos (coisa que só aconteceu em 1928, quando Alexander Fleming descobriu a penicilina), conseguir esses curativos usados era muito fácil, pois infecções graves eram algo normal até os antibióticos começarem a ser utilizados.
A partir dos núcleos isolados dos leucócitos ele conseguiu extrair substâncias ácidas que possuíam alto teor do elemento fósforo e eram resistentes a enzimas que quebram proteínas (mostrando que o novo achado não era de natureza proteica). Esse novo composto químico foi chamado de nucleína.
Um fato curioso é que o trabalho que ele escreveu com esses resultados e descobertas só foi publicado 2 anos depois, em 1871, quando Felix Hoppe-Seyler, chefe do laboratório em que Miescher trabalhava, confirmou todos os resultados.
Felix sabia da importância da descoberta e preferiu repetir todos os passos de seu aluno no laboratório antes de apresentar a novidade à comunidade científica.

Laboratório de Felix Hoppe-Seyler, na Universidade de Tübingen.
Quando todos os achados de Miescher foram confirmados eles publicaram vários trabalhos em revistas especializadas, e é aqui que está o erro do Estadão que me levou a escrever este texto.
O infográfico aponta Miescher como o descobridor do DNA em espermatozoides de peixes. No entanto, o trabalho em que foram estudados os espermatozoides de salmão foi publicado três anos depois dos estudos com leucócitos (em 1874), então o trabalho de 1871 é a verdadeira “descoberta do DNA”, pois foi a primeira publicação que descreveu a nucleína, que depois seria descrita como um ácido nucleico chamado ácido desoxirribonucleico, o famoso DNA.
Veja o especial “Sequenciamento do Genoma, 10 anos”, do Estadão.
Dahm, R. (2007). Discovering DNA: Friedrich Miescher and the early years of nucleic acid research Human Genetics, 122 (6), 565-581 DOI: 10.1007/s00439-007-0433-0
read more
Posted by Gabriel Cunha on 18 jun 2010 in Ciensinando, ensino de ciências | 1 comment
Hoje indico para vocês uma ótima fonte de conteúdo relacionado ao ensino de ciências. Em 2009 o Instituto Ciência Hoje renovou seu portal online, que agora conta com blogs, podcasts e um espaço totalmente dedicado ao apoio à educação.
A seção “Alô, Professor” é uma iniciativa voltada ao diálogo com professores de ciências dos ensinos fundamental e médio e agrega notícias, dicas de atividades e experimentos para uso em sala.
Também são comuns entrevistas com pessoas engajadas em projetos de educação em Ciências que mantém blogs relacionados ao tema. Muita gente boa já passou por ali, como o Luis Brudna (dos blogs Em Síntese e Tabela Periódica, sobre Química), a Tatiana Nahas (Ciência na Mídia), e Eli Vieira (Evolucionismo).
E, abaixo, foi a minha vez de conversar com o jornalista da Ciência Hoje Thiago Camelo sobre o Ciensinando e algumas ideias relacionadas à educação científica!

Clique na imagem e leia a entrevista completa na Ciência Hoje!
Confira uma conversa bem agradável que abordou a proposta do blog, a indicação de material didático alternativo e a crítica de temas atuais da mídia, como a “célula sintética”.
Agradeço novamente à equipe da Ciência Hoje Online pela chance de discutir e divulgar meu projeto!
E, claro, espero que todos gostem da entrevista!
read more