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Vida sintética?

Vida sintética?

Esse texto sai um pouco da temática do Ciensinando pois trata de um assunto complexo sem antes discutir o conceito por trás da notícia. Apesar disso, é mais um exemplo de como devemos encarar de modo crítico toda a informação a que temos acesso.

O anúncio da criação da “primeira célula sintética” está sendo tratado como o grande acontecimento científico de 2010 (até agora).  Com isso, aconteceu o que eu esperava: a mídia recheou portais, jornais e programas de rádio com interpretações totalmente erradas sobre a ciência do trabalho.

Muitos encaram os resultados publicados na revista Science como o passo definitivo para a criação de vida artificial. Em teoria será possível criar organismos capazes de degradar óleo (minizando desastres ambientais), produzir biocombustíveis ou ainda captar grandes quantidades de dióxido de carbono (minizando o efeito estufa).

Minha pergunta é: podemos realmente entender que testemunhamos a criação de um organismo sintético? Após ler o artigo da Science e pensar sobre o que eu consideraria uma forma de vida artificial, minha resposta é um simples não.

Outras pessoas que eu considero igualmente competentes para tratar do assunto mostraram uma opinião similar à minha, como Rafael Soares (do RNAm), Roberto Takata (Gene Repórter) e Tatiana Nahas (Ciência na Mídia). Eles já abordaram as questões técnicas como eu faria aqui, então sugiro que ao final desse texto vocês acessem o blog de cada um deles para mais informações.

ResearchBlogging.org

Resumidamente, o que o trabalho publicado comunica é o resultado de vários estudos realizados para se conseguir sintetizar um genoma completo e transplantá-lo para uma célula “recipiente” de outra espécie de bactéria.

O genoma escolhido foi do organismo Mycoplasma mycoides (um dos menores conhecidos, com apenas 1 milhão de pares de bases) e o alvo do transplante foi o Mycoplasma capricolum, espécie muito próxima da M. mycoides.

O genoma foi “desenhado” em um programa de computador e construído por amplificações sucessivas de vários de seus pedaços. Estes foram “colados” até que, de pequenos fragmentos de 1000 (mil) pares de bases (as letrinhas – A, T, C e G – que simbolizam o DNA) os cientistas conseguissem fragmentos de 10000 (dez mil) e em seguida de 100000 (cem mil) bases. Esses fragmentos maiores foram então agregados, formando um genoma totalmente sintético.

O ponto importante: o genoma é artificial, mas e todo o conteúdo da célula que recebeu esse material genético?

A membrana da célula (membrana plasmática) e suas proteínas são tão importantes quanto o DNA para que a célula possa sobreviver e se multiplicar. Se houvesse um modo de retirar todo o conteúdo da célula e injetar somente o DNA sintético a mesma morreria, afinal, sem proteínas que acessem o DNA para produzir RNA e finalmente as proteínas celulares indispensáveis à vida não há como o “organismo sintético” manter-se vivo.

Desse modo, até termos competência para sintetizar uma membrana plasmática especializada como as biológicas e as proteínas necessárias para a fisiologia celular, não podemos considerar que exista qualquer organismo sintético.

Explicados meus motivos, entenderam minha implicância com os meios de comunicação? Minha motivação para escrever esse texto partiu de uma notícia que chegou até mim via twitter. Um vídeo publicado no TV UOL descaracterizou completamente uma matéria publicada pela BBC Brasil. Comparem os títulos:

BBC Brasil: Cientistas americanos criam célula com genoma sintético.

TV UOL: Cientistas criam 1ª forma de vida completamente artificial.

Além do título distorcido, a chamada para o vídeo é muito pior:

Cientistas americanos dizem ter desenvolvido a primeira forma de vida completamente artificial, a primeira célula controlada por um genoma sintético. O avanço já está sendo descrito como uma das conquistas científicas mais importantes da história da humanidade.

A informação está tão distorcida que parece ter sido feita de propósito. De qualquer modo, recomendo o vídeo da BBC Brasil (logo abaixo) por ter apresentado outra matéria sobre o assunto que considero ainda mais correta.

O título? “Cientistas transplantam genoma em novo ‘passo’ rumo à criação de vida sintética.” Isso sim é resumir de modo claro e correto os resultados do artigo publicado.

Links para as matérias comentadas: TV UOL, BBC Brasil 1 e BBC Brasil 2.

Textos indicados: Essa nossa vidinha sintética (RNAm), A bactéria sintética de Craig Venter (Ciência na Mídia) e Vida sintética e artificialismos (Gene Repórter).

Gibson, D., Glass, J., Lartigue, C., Noskov, V., Chuang, R., Algire, M., Benders, G., Montague, M., Ma, L., Moodie, M., Merryman, C., Vashee, S., Krishnakumar, R., Assad-Garcia, N., Andrews-Pfannkoch, C., Denisova, E., Young, L., Qi, Z., Segall-Shapiro, T., Calvey, C., Parmar, P., Hutchison, C., Smith, H., & Venter, J. (2010). Creation of a Bacterial Cell Controlled by a Chemically Synthesized Genome Science DOI: 10.1126/science.1190719

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